quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O que será afinal o Natal?...


Disperso na azáfama deste consumismo desenfreado, em que as pessoas se atropelam nas intermináveis filas de espera dos centros comerciais, na ânsia de encontrar os últimos presentes de Natal, ainda que estes mesmos em nada se identifiquem com o destinatário, vagueia impetuosamente pelos recônditos infinitos do meu pensamento a pertinente questão: o que será afinal o Natal?

Não será o Natal o esboçar de um sorriso na candura iluminada daqueles rostos vincados pelas profundas rugas de tristeza e amargura?

Não será o Natal o acender da centelha cristalina naqueles olhares que reflectem a profunda solidão dos que foram entregues ao desprezo e abandono desta sociedade desprovida de valores?

Pois bem, fica dissolvida na atmosfera esta simples e desconcertante questão... Estará ao nosso alcance
fazer acontecer o Natal?


Com os votos de Feliz Natal,

Abraço,

Helder Magalhães

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Horas Lânguidas



Horas lânguidas essas,

em que as torrentes das

águas voluptuosas escorrem

ardentemente em cada poro

da nossa pele de veludo,

incendiando nossos corpos

numa pira incandescente…

Ávidos, sedentos de prazer

possuímo-nos alucinantemente,

suspirando em estonteante espiral

rumo ao ocaso do eclipse total…


P.S. Este Poema encontra-se presente num dos 20 cigarros do Maço de Poemas, a 1ª Antologia WAF.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Comunhão do Pecado


Colo meu corpo no teu
percorro-te com meu olhar fogo
sentes o incêndio que lavra em mim...

Incendeio-te com palavras
embebidas em desejo....
Exploro avidamente tua pele
em carícias profanas,
sulcando um rasto ardente...

Corpos inflamados,
na pira incandescente da paixão...

Cego de desejo rasgo,
impaciente, tuas vestes...
Deleito-me nesta volúpia
estonteante que me enlouquece...

Nesta mistura de salivas
com aroma a frutos silvestres,
rendemo-nos inebriados na
loucura de um tórrido beijo…

Insanos delírios nos trespassam…

Assolados em voraz tempestade,
atracamos nesse teu húmido éden...

Afloramos lentamente esse mar,
na sublime flor de lótus desejada…
No flamejante grito que nos consome,
a súplica deste nossos corpos ávidos…

Escalamos às montanhas,
banhamo-nos nos oceanos,
embalados em altas e baixas marés...

Bramidos ecoam pelo universo,
na imponente fusão desenfreada...
Amantes, possuímo-nos triunfalmente,
na fragrância da alucinante luxúria...


Poema embebido no Cálice do Pecado da Bruma da Noite...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Temporal de Amor


Oiço a chuva cair torrencialmente lá fora,
propagando estridentes e metálicos sons
que ecoam em penetrantes bramidos neste
lento e silencioso despertar da aurora...

No calor deste leito que me acolhe,
um gélido arrepio se apodera do meu corpo...

(Vazio imensurável de Ti...)

Surges então, excelsa Mulher, envolta
nessa sublime aura resplandecente,
irrompendo por entre estes lençóis...

Enlaças teu corpo esbelto neste
meu corpo voluptuoso desnudo...

Fundimo-nos...

Inebriados neste louco temporal de Amor...


Je T'Aime Passionement!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Cúmplices Momentos


«No verão deste ano a Worldartfriends editora lançou um projecto chamado "Ministério da Poesia 2008". Pretendeu-se com o mesmo apresentar uma nova geração de Poetas. Concorreram mais de uma centena e foram publicados 30 autores no seu total.A escolha do vencedor foi difícil dada a qualidade dos trabalhos. Ao escolhermos o "Ministro" não o escolhemos apenas baseados no livro em si. Para além da qualidade literária, levámos em linha de conta o trabalho, a paixão e a dedicação que pensamos que será entregue a este novo "cargo". Afinal de contas será este o "porta voz" de todos os outros.É hoje eleito o "nosso" "Ministro da Poesia 2008". O seu nome Hélder Magalhães ( o nosso "moreno9").Como prémio a editora irá oferecer 50 exemplares do livro vencedor ao autor.Parabéns ao autor e parabéns a todos os outros autores.» (in www.worldartfriends.com)

A todos vós o meu sincero obrigado!

A Ti, minha Musa, minha fonte de inspiração, a Mulher que Amo de Corpo e Alma, apenas posso dizer que, sem Ti, o realizar deste sonho não seria possível... Amo-te!

P.S. Quem desejar adquirir "Cúmplices Momentos" pode fazê-lo através do meu e-mail iluminado9@gmail.com... Um presente de Natal original e único :-)

Fragmentos de Loucura



À janela deste imenso Universo,
anseias desnuda a minha chegada...

Recebes-me nessa profana boca que
devora insanamente cada poro deste meu corpo ávido...

Corpos nus que contemplam a sensual dança no desejo á flor da pele...
No entrelaçar, a louca paixão deste fogo que nos consome...

Abandonados ao ardente prazer de carícias ousadas...
Sucumbimos em êxtase ao alucinante deleite...

Sinto o teu corpo arquear desenfreadamente,
contemplando esta luxúria incandescente...

Na plena entrega dos nossos lábios sedentos,
eternizamos a beleza do Amor Incondicional....


Amo-te de Corpo e Alma!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Convite


A tua presença é essencial! Não Faltes!

Alma Gémea



Na beleza de um simples Acaso,
o cruzar de mundos tão diferentes...
Na etérea partilha do profundo Eu,
uma Cumplicidade Única se revela....
Tocam-se os Sonhos num mesmo Universo,
floresce a Magia de um Amor Incondicional...


Nada mais preciso dizer, todas as palavras, todos os adjectivos se condensam na simplicidade do pulsar do nosso coração, na candura do nosso sorriso, no brilho do nosso olhar...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ser Poeta é...



Respirar a sublime fragrância do aroma da tua pele ardente
Contemplar a candura inebriante desse sorriso resplandecente...

Degustar o etéreo paladar desses teus lábios num beijo sedutor
Elevar os braços ao infinito sentindo o pulsar deste forte clamor...

Flutuar embalado no ritmo doce e sensual da tua voz, pelo universo
Desenhar a essência pura dessa beleza nos contornos de cada verso...


Ser Poeta é Amar-te, Respirar-te, Sentir-te, Desejar-te....

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Momento



Num auditório repleto de amigos e familiares, decorreu a apresentação do meu livro Iluminado. Numa cerimónia simples, com a colaboração da Drª Dora Gaspar, Chefe do Gabinete de Apoio à Presidência da CM de Vizela, partilhei este sonho tornado realidade.

Agradeço à CM de Vizela e à Fundação Jorge Antunes pela organização deste evento. O meu obrigado também para todos os que estiveram presentes, não apenas fisicamente, mas também em pensamento.

P.S. É uma sensação estranha, mas confesso que reconfortante, assinar uma dedicatória :)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Apresentação de Iluminado



É com imenso prazer que vos comunico a apresentação do meu livro 'Iluminado'.

Será no dia 25 de Outubro, a partir das 17h, em Vizela, na Fundação Jorge Antunes.


O evento é organizado em parceria pela Câmara Municipal e a Fundação Jorge Antunes.

É mais uma etapa importante neste sonho que desejo partilhar convosco.

Não faltes!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Voo Flamejante


Neste início de tarde em que o sol se esconde por detrás das cinzentas nuvens pinceladas no firmamento, etéreos filmamentos da tua luz cristalina irradiam incandescentes, e subtilmente penetram no mais intímo do meu ser, envolvendo-me numa aura de beleza resplandescente... Despertas em mim a magia daquele sorriso em que o rosto transparece o mais puro reflexo da alma de um ser completamente enamorado.... Das nuvens brotam suaves e refrescantes lágrimas de chuva que ao caírem sobre mim se transformam em reluzentes cristais que delicadamente deslizam sobre minha face... Então, lentamente abro os meus braços, levanto vôo, flutuando radiante na tua direcção, sentindo este clamor flamejante do meu coração...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Imenso Areal


Os primeiros raios de sol invadem radiantemente a terra, os nossos pés deslizam suavemente nos finos grãos de areia desta praia deserta pelo amanhecer... Saboreamos as delicadas carícias da brisa marítima que percorre graciosamente as margens dos nossos corpos.... Respiramos o aroma a maresia que penetra lentamente nas nossas entranhas, inebriando por completo os nossos seres... As nossas mãos entrelaçadas selam a união etérea destas almas que se complementam na imensidão destas águas cristalinas que fundem no horizonte do firmamento azul celeste... Contemplamos a harmonia da natureza nesta sublime tela que se apresenta aos nossos olhares penetrantes e se enraíza no mais intímo destes simples corpos que flutuam magistralmente ao ritmo das ondas que quebram neste imenso areal....

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Mon Autre

És a minha Eterna Amante... A Mulher que Amo de Corpo e Alma...

A Mulher com quem quero e preciso partilhar cada momento, entregar-me por completo, na plenitude do meu Ser...

T'es Mon Autre... Je T'Aime plus que tout

Amantes


Pelas estradas deste mágico Universo
Flutuamos eternamente enamorados
Sussurrando ardentemente cada verso
Na candura dos sorrisos desenhados

Contemplamos este manto cintilante
Neste esplendor da lua incandescente
Entrelaçados neste aroma inebriante
Maravilhosa harmonia resplandecente

Saboreamos a plenitude do momento
Na etérea cumplicidade dos Amantes
Perfeita simbiose, silente movimento
Nascente pura em prados verdejantes

Parque


Percorremos lentamente os trilhos do Parque,
mergulhando na magia da natureza.
Caminhamos suavemente,
sentindo o delicado crepitar dos nossos passos no solo,
conjugado com o doce chilrear dos pássaros...
Avançamos pela margem do pequeno lago,
observando o deslizar nas águas dos patos selvagens....
Trocamos sorrisos cúmplices,
sentindo o calor emanar das nossas mãos unidas
no entrelaçar dos nossos esguios dedos...
Paramos ao pé da fonte
que jorra tímidos repuxos de água cristalina,
absorvemos o conjunto de aromas silvestres
que flutua graciosamente na atmosfera que nos envolve....
Os nossos corpos abraçam-se ternamente,
ficamos assim inebriados nesta harmonia plena
que penetra no mais profundo dos nossos seres...
No silêncio envolvente,
os nossos olhares incandescentes cruzam-se,
contemplando a beleza deste momento etéreo...
Os nossos rostos inclinam-se ligeiramente,
sentindo os nossos lábios tocarem-se delicadamente...
Entregamo-nos sem reservas,
na eternidade de um beijo apaixonado,
saboreando a sublime fragrância de duas almas enamoradas....

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Nunca Imagine

Jamais poderia ousar imaginar ser possível Amar assim...

Ser completamente arrebatado pela grandeza, beleza e plenitude do Amor Incondicional...

Sentir este Amor fluir nas minhas veias, fervilhar no mais íntimo do meu Ser, preencher-me por completo...

Yo Te Amo... Te Quiero...

Mar de Sonhos


Caminhamos...
Sobre o crepitar dos finos grãos de areia
Perdidos na imensidão da praia deserta
Paramos...
À beira-mar, no enlaçar das nossas mãos
Sentindo as ondas beijar os nossos pés
Sorrimos...
Contemplando a magia da noite de Lua Cheia
Inebriados na harmonia etérea do momento
Entrelaçamos...
Nossos Corpos que se entregam na plenitude
Cúmplices Amantes no espaço intemporal
Amamos!...

Entardecer


Ao entardecer,
sobre a areia quente da praia
com o sol flamejante a fundir-se no Mar,
conjugamos na plenitude o verbo Amar...
Rebolamos ofegantes à beira mar
explorando cada poro destes nossos corpos
em subtis carícias que nos fazem suspirar....
Os nossos corpos rasgam-se ardentemente
soltando longos e profundos gemidos
num estonteante e alucinante cavalgar....
Completamente atordoados e inebriados,
no aroma etéreo dos nossos corpos em fusão
deliramos por completo em profundo êxtase...
Em perfeita simbiose no apogeu do momento
nossos corpos gemem em plena comunhão
explodindo no poente do orgasmo divinal
mágico esplendor do Amor triunfal...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Je T'Aime



Je t'aime, je t'aime
Comme un fou
comme un soldat
comme une star de cinéma
Je t'aime, je t'aime
Comme un loup,
comme un roi
Comme un homme que je ne suis pas
Tu vois, je t'aime comme ça..."

É este o grito penetrante que me trespassa e me preenche...

Je T'Aime plus que tout... Tu me manques terriblement...

Grito


Possui…
A plenitude deste corpo
Que infinitamente te pertence!

Sacia…
A fome deste etéreo desejo
Que insanamente me enlouquece!

Viaja…
No pulsar do ritmo alucinante
Que vibra no mais intimo de mim!

Cavalga…
Na imensidão deste oceano
Numa profundidade sem fim!

Encontro


Na imensidão do azul do céu
Flutuo alado nas asas do Amor
Voo flamejante na tua direcção
Embalado no pulsar do meu coração

Rasgo o manto branco deste véu
Grito que me consome com ardor
Na ânsia de me perder no teu olhar
Na candura do teu sorriso me enamorar

Finalmente aterro no porto de abrigo
Aquele destino profundamente desejado
Caminho impaciente para ir ter contigo

Avistas-me perdido no meio da multidão
O Universo paraliza no encontro tatuado
Duas Almas Gémeas selam a eterna união.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Jardins Proibidos



És a Flor que habita a plenitude do meu jardim, com uma beleza e candura única... O teu aroma percorre todo o meu Ser, a tua luz irradia no mais profundo de mim...

Secreto Jardim


Aconchegado neste banco de jardim
Saboreio as carícias da brisa matinal
Trazendo esse teu sussurro até mim
Perfeita melodia, sintonia magistral

Os meus olhos fecham-se lentamente
Pressinto a tua chegada de mansinho
Irradiando essa tua luz resplandecente
Etéreos filamentos repletos de carinho

Sentas-te delicadamente ao meu lado
Envolves-me nesse manto de ternura
Fazendo-me sentir plenamente Amado
Inebriado nesse aroma de beleza pura

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Penetrante

Cai lentamente
A Chuva
Dançam suavemente
Pequenas gotículas
Deslizam ternamente
Nas terras aradas
Penetram delicadamente
Na aridez do solo

O sol
Inunda a terra
Com os seus raios
Radiantes
Fulminantes
Alimenta
Rejuvenesce
Aquele solo árido
Enriquece
A semente
Cresce
A Vida
Floresce

Tu és a chuva,
que em mim penetra
Tu és o sol,
que em mim irradia
No meu coração
Fizeste desabrochar
A semente do Amor
Criaste raízes
Nas profundezas
Do meu Ser
Fecundas
Todo o meu Eu

Amo-te
Sou teu!...

Ama-me!...


Ama-me
Na ternura do teu abraço
Ama-me
No calor desse teu regaço
Ama-me
No cavalgar pelo paraíso
Ama-me
Na candura desse teu sorriso
Ama-me
No silêncio de cada amanhecer
Ama-me
Na plenitude de cada anoitecer
Ama-me
No brilho do olhar incandescente
Ama-me
No reflexo do luar resplandecente
Ama-me
Na partilha etérea de cada momento
Ama-me
No frenético pulsar deste sentimento
Ama-me
Como jamais poderia imaginar ousar
Ama-me
Na plena comunhão do verbo Amar
Beija-me
E… Simplesmente, Ama-me!...



No sussurro deste poema apenas Te quero dizer que sinto a plenitude do teu Amor em cada instante....

Alma de Poeta


Recentemente comecei a rabiscar alguns poemas... Na minha alma desabrochou a poesia, inspirado pela presença da minha Musa, no sentimento único que me preenche e arrebata por completo... Na cadência do forte pulsar do meu coração, deixo-me flutuar e embalar a minha alma de poeta...

Desejo desenhar cada verso na suavidade da tua pele de veludo... És a minha Musa, o meu eterno Poema...

domingo, 3 de agosto de 2008

Perfume

Fechar os olhos, inspirar bem profundo, respirar esse aroma, a fragância da nossa essência...

Deixar-nos inebriar, flutuar, viver embalados nesse perfume, na magia dos sentidos....

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Realização de um Sonho



"O Homem Sonha, Deus Quer, a Obra Nasce"...

Esta famosa citação diz tudo... Nasceu a obra, o meu primeiro livro, a realização de um sonho...


É com enorme contentamento que partilho convosco esta novidade, pois tudo isto só faz sentido se partilhado com os outros...


Escrever é...

Delirar
Desatinar
Rasgar
Penetrar
Explorar
Saborear
Degustar
Partilhar!...


A todos os que me têm acompanhado e apoiado o meu sincero obrigado...

domingo, 27 de julho de 2008

Es Tu Amor



'Es Tu Amor que me hace revivir'...

O Verdadeiro e Incondicional Amor faz-nos renascer em cada momento, irradiar uma aura resplandescente, um brilho puro e cristalino...

Amo-te...

Amanhecer


No suave despertar da aurora da manhã, irrompes silenciosamente na porta do meu quarto, caminhando em passos de veludo na direcção da cama que acolhe o meu corpo adormecido entre os lençóis... Contemplas a harmonia do meu Ser em pleno sono profundo, percorrendo os traços do meu rosto com o teu olhar doce, esboçando a candura de um sorriso... Deslizas subtilmente o teu indicador sobre a minha pele desnudada, afastando o lençol branco que me cobre... Deitas-te ao meu lado, ocupando o vazio da minha cama, aconchegas o teu corpo no meu e acaricias ternamente os traços suaves do meu rosto.... Contornas lentamente os meus lábios, pousas suavemente os teus lábios nos meus, fazendo-me despertar de um sono profundo no mel dos teus lábios, na magia do teu beijo... Lentamente entreabro os meus olhos, sorrindo abertamente para Ti, perdendo-me na beleza que os meus olhos ainda meio adormecidos contemplam... Sussurramos palavras de Amor, perdidas entre sorrisos resplandescentes e olhares cúmplices... Ficamos assim embalados, corpos entrelaçados entre a seda dos lençóis, amando-nos ao amanhecer...


Este amanhecer está tatuado na minha alma, na minha pele, na plenitude do meu Ser... Quero, preciso, desejo amanhecer em Ti...

Ministério da Poesia 2008



Este é o novo desafio... Partilhar e ser partilhado...
A Comunidade Word Art Friends (WWF) desafia novos autores, a inscreverem-se e partilharem os seus textos, podendo num futuro próximo verem esses trabalhos publicados pela Corpos Editora...

Como resposta a este aliciante desafio, já iniciei a partilha de poemas e textos nesta comunidade... Um deixar fluir as emoções e sentimentos... Afinal, o sonho comanda a Vida e o Céu é o limite...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Gnosei seauton

"É ridículo dizê-lo mas, mal o vi, o meu coração começou a bater de uma forma diferente, mais do que bater dir-se-ia que andava às voltas, parecia um animalzinho satisfeito, só fazia assim quando via o Ernesto. Sentei-me debaixo do carvalho, acariciei-o, encostei ao tronco as costas e a nuca.
Quando era rapariga, na capa do caderno de Grego escrevi o seguinte: Gnosei seauton. Aos pés do carvalho, aquela frase sepultada na memória veio-me de súbito à ideia. Conhece-te a ti mesmo. Ar, respiro." (in Vai Aonde Te Leva o Coração, Susanna Tamaro)

'Conhece-te a ti mesmo'... Esse é o grande desafio colocado a cada ao Homem. Só conhecendo-nos a nós mesmos, podemos respirar, inspirar fundo, sentindo a harmonia do nosso Ser com a Natureza que nos rodeia.

Como conseguimos descobrir-nos a nós mesmos, sentir esta harmonia plena?

Apenas o conseguimos quando encontramos a voz do nosso interior, a voz da nossa consciência... Para ouvir esta voz, precisamos de nos recolher em silêncio, de entrarmos em nós próprios, abstrair-nos do ruído que nos rodeia... De início pode parece assustador, pois o silêncio para muitos ainda é algo de demasiado misterioso, como um quebra-cabeças para ser desvendado por alguns gurus das denominadas ciências ocultas...
Mas tal como as árvores ficam completamente desnudadas no Outono, criando raízes no solo, para se revestirem e florirem alegremente na Primavera, também cada um de nós precisa de se despir no silêncio, para conseguir encontrar a voz do nosso interior, encontrando as respostas às nossas mais complexas questões, descobrindo a nossa verdadeira identidade...

Quando conseguirmos escutar esta voz, não tenhamos medo, mas sim coragem para interiorizar e aceitar essa voz, vivendo de acordo com a nossa verdadeira identidade, voando nas asas da nossa liberdade interior, no pulsar do nosso coração, pois só assim conseguiremos ser verdadeiramente Felizes...

"Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde te levar."

domingo, 8 de junho de 2008

The Story



Tu és...
Harmonia
Eternidade, Entrega total

Simplicidade... Sedução
Toque... Ternura
Onda do Mar
Resplandescente
Yes, I Love You...

Esta música é um grito da alma, repleta de sentimento, emoções...

Cada um de nós tem a sua história e cada um de nós pode e deve escrever a sua própria história, ser o actor principal da sua história...

Quanto à história da minha vida, quero continuar a escrevê-la ao lado da Mulher que Amo na plenitude do meu ser, em que cada momento seja um singular e singelo capítulo de uma história de eterno Amor...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Faz-te ao mar...



O que realmente nos faz sonhar? O que de verdade nos leva a soltar as amarras do barco da nossa vida, partindo do cais, fazendo-nos ao mar?

É importante atracar o barco no cais, parar, reflectir, mas não podemos ficar eternamente no porto de embarque. Precisamos largar as amarras que nos prendem, vencer os medos, os receios que nos impedem de seguir viagem, impelindo o barco na direcção dos nossos sonhos, rumo ao destino que realmente desejamos com todas as nossas forças.

Fazendo-nos ao mar corremos o risco de enfrentar tempestades e ter de lutar contra as maiores adversidades, mas esse é o risco, o grande desafio de viver. Deixar-nos conduzir nas asas dos sonhos, viver cada momento ao máximo, lutando pelos nossos objectivos em cada dia...

O maior desafio do Homem é viver no Amor, na Esperança de alcançar a verdadeira Felicidade. Sinto-me um homem privilegiado por ter descoberto o Verdadeiro Amor e o meu sonho é partilhar, viver na plenitude esse Amor com a Mulher que me preenche...

Outro dos meus sonhos é editar um livro, partilhando estes fragmentos que tenho escrito neste blog, um pedaço da minha vida, do meu Ser, podendo assim, de alguma forma. ajudar pessoas que se encontrem em situações semelhantes com o meu testemunho.

Porque o dom da Vida só tem sentido quando partilhada, doada aos outros....

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Nothing Else Matters



Eternamente confiando naquilo que realmente somos, nas nossas capacidades... Em cada amanhecer, para nós algo de novo... Uma mente aberta para uma concepção diferente... De mãos entrelaçadas, sorrisos e olhares cúmplices... E nada mais importa...

Epílogo


Passados cerca de 8 anos, não me sinto um herói por ter vencido uma doença como o cancro. Sinto que venci uma batalha importante da minha vida, com muito sofrimento e dor, mas acima de tudo com muita esperança. Esperança num amanhã que podemos construir com as nossas mãos, através das opções que tomamos na nossa vida.
Mais importante do que sobreviver, eu decidi que queria viver, acordar todos os dias com um sorriso no rosto, deixar-me inundar pela luz do sol e caminhar na estrada da vida. A força interior que desabrochou em mim, permitiu que encarasse a vida com outro olhar, aceitando o meu corpo tal como ele é, conseguindo vencer as barreiras que uma deficiência pode causar, ultrapassando os meus próprios limites.
Para mim o essencial é correr atrás do sonho, viver a beleza de cada momento, de cada dia, lutando pelos nossos objectivos pessoais. Quando sentimos algo em nós mais forte, capaz de vencer cada obstáculo que surge no nosso caminho, é difícil perder a alegria de viver, por muito complicada que seja a caminhada que temos de enfrentar.
Aceitar as nossas diferenças e ter consciência das dificuldades que enfrentamos que temos de lidar no dia a dia são os alicerces para construirmos a nossa felicidade. Precisamos de descobrir a nossa verdadeira identidade, no âmago do nosso ser, a total liberdade que existe em nós que nos faz voar e sentir a beleza da vida.


Cada um de nós pode ir mais além, tendo noção das suas capacidades, acreditando no seu verdadeiro potencial, evitando perder tempo em lamentar as contrariedades que surgem na nossa caminhada.
Com este simples testemunho, quero partilhar um pedaço de mim, algo que muito contribuiu para a pessoa que sou hoje. Aprendi e tenho sempre presente que a vida é um dom, um dom que não podemos desperdiçar.
Este dom da vida deve ser também colocado ao serviço dos outros, não o fechando na concha do nosso egoísmo. A nossa vida, as capacidades que possuímos devem ser partilhadas com as pessoas que nos rodeiam, fomentando a comunhão com o próximo.
Ajudar os outros, contribuir para que no rosto das pessoas mais necessitadas e excluídas da nossa sociedade floresça um sorriso, é algo que me preenche e faz sorrir. É com pequenos gestos que conseguimos tornar o mundo num lugar mais agradável.
A vida tem um sentido, podemos demorar muito tempo a descobrir esse mesmo sentido, o caminho da felicidade, mas não podemos desistir, não podemos baixar os braços perante as barreiras e obstáculos que vão surgindo. Na maioria das vezes, tentamos encontrar a felicidade no exterior, naquilo que nos rodeia, e acabamos na superficialidade, obtendo apenas pequenos momentos de êxtase, mas fugindo da nossa verdadeira identidade, acabando por cair num vazio profundo. A verdadeira felicidade reside em cada um de nós, na medida de se sentir em harmonia consigo próprio, descobrindo o seu verdadeiro ‘Eu’ no seu interior, podendo dessa forma partilhá-lo com os outros, resistindo às tempestades e adversidades que aparecem no nosso caminhar.
Sinto que ainda estou apenas no início dessa caminhada, dessa aventura que é viver, tendo consciência que cada amanhecer é um novo desafio, uma nova etapa, um novo dia para Amar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Prótese II


Durante os primeiros dias, apenas colocava a prótese durante cerca de uma hora, para ir adaptando o coto àquela forte pressão e esforço constante. Aproveitava as sessões de fisioterapia para calçar a prótese e efectuar os exercícios de equilíbrio e adaptação aconselhados pelo fisioterapeuta que me acompanhava. Era sobretudo essencial que nestes primeiros dias fosse ganhando alguma consistência, apoiando o peso do meu corpo sobre a nova perna, para que desenvolvesse os músculos e a força necessária para conseguir caminhar normalmente.
A adaptação começava a ser uma realidade sorridente, os exercícios de marcha com o apoio das barras laterais começavam a surtir efeito. Além das sessões de fisioterapia, também comecei a colocar a prótese em casa e a caminhar durante algum tempo com o apoio das canadianas. Ao fim de poucos dias, já me sentia mais à vontade com a prótese e apenas utilizava uma canadiana para me apoiar durante os meus passos.
Tanto o fisioterapeuta como o técnico aconselhavam-me a ir calmamente, a ser paciente, para que durante este processo de adaptação não adquirisse certos hábitos que prejudicassem a naturalidade da minha marcha num futuro próximo.
Passado cerca de um mês já conseguia caminhar mais naturalmente, sem a ajuda das canadianas. Tentava aperfeiçoar diariamente a minha marcha e sentia uma grande alegria e entusiasmo por estar a conseguir vencer mais uma batalha que ao início parecia bastante complicada.

Com o decorrer do tempo, fui adaptando-me cada vez melhor à minha nova realidade, habituando-me com naturalidade a todos os mecanismos envolventes ao uso da prótese. Calçar a prótese começava a ser tão natural como calçar um par de sapatos. Conseguia andar quase todo o dia com a prótese, aguentando o esforço e um ritmo diário algo intenso sem sentir dores ou acusar cansaço.
Era uma sensação plena de liberdade poder caminhar novamente sobre as minhas pernas, poder passear com liberdade. Apenas sentia um pouco de dificuldade quando andava sobre pisos irregulares ou passeios com subidas ou descidas acentuadas, o que era normal segundo o que o técnico me havia dito.
É claro que existem algumas limitações físicas, algumas barreiras que o uso da prótese não consegue vencer, mas é uma realidade que não impede em nada de viver intensamente o meu dia a dia, ou que me faça sentir inferior e infeliz. Além de conseguir adaptar-me à nova realidade física da prótese e todos os cuidados necessários ao seu uso, o mais importante é vencer as barreiras mais difíceis, os preconceitos e barreiras interiores. Ter consciência das nossas limitações e acreditar que esse facto não é impedimento para seguir em frente e lutar pela felicidade como outro ser humano qualquer é o factor mais importante para que consiga ultrapassar todos os obstáculos que vão surgindo diariamente.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

In My Place



Muitas vezes sentimo-nos impotentes perante certas barreiras que precisamos de vencer... Então o desânimo, a desilusão, o medo, apoderam-se do nosso ser... É necessário parar, meditar, reflectir, descobrir forças, energias, lutar para conseguir contornar, vencer essas barreiras...

Prótese I


Após cerca de sete meses da cirurgia, do dia em que ficara sem a perna direita, é que estava finalmente pronto para avançar para a prótese. Na consulta de medicina física, a médica, depois de me examinar e verificar a evolução do meu coto, disse-me que chegara o momento de prescrever a prótese. Era um momento muito importante para mim, pois aproximava-se o próximo passo da minha completa recuperação.
Passado cerca de um mês, recebia uma chamada de uma casa ortopédica com a finalidade de marcar o dia e a hora para fazer os moldes e tirar medidas. Crescia em mim uma certa ansiedade por estar prestes a descobrir algo que desconhecia e iria ser fundamental para os dias da minha vida.
Na semana seguinte, seguia em direcção ao Porto, a caminho do local onde ficava a casa ortopédica onde estava marcado para o início da manhã a sessão de testes para efectuar os moldes necessários à construção da prótese. Foi um pouco complicado conseguir descobrir o local, mas após alguma confusão no trânsito e umas paragens para perguntar indicações a transeuntes.
Finalmente chegava ao local pretendido, dirigindo-me à recepção para efectuar os requisitos necessários para a abertura do meu processo. Depois das burocracias realizadas, fui recebido por um técnico ainda relativamente jovem e muito bem disposto. Cumprimentou-me e apresentou-se colocando-me desde logo bastante à vontade, criando desde logo uma empatia agradável entre nós.
A manhã foi muito preenchida a tirar um número infindável de medidas e a efectuar moldes. Era tudo um pouco estranho para mim, observava todos aqueles processos e técnicas com bastante curiosidade e tentava ser o mais prestável possível ao que me pediam para fazer. Explicaram-me que a construção da prótese era um processo que requeria muita dedicação e técnica e que alguns materiais eram importados, pelo que iria demorar cerca de três semanas para que me chamassem com o objectivo de ver o resultado e experimentar.
No final daquela manhã intensa, estava de regresso a casa, sentindo um misto de entusiasmo e ansiedade pelo facto de estar cada vez mais próximo e real a concretização de um grande passo para a minha qualidade de vida no futuro.

O prazo de construção foi cumprido rigorosamente e, após o intervalo das três semanas, contactaram-me para me informar que a prótese estava pronta para eu a testar e experimentar pela primeira vez. Combinamos a data para a realização desse grande momento.
Aquele dia, em que finalmente iria ver a minha nova perna direita e que poderia experimentar e sentir o que era novamente caminhar, havia chegado. Desta vez entrava directamente para o ginásio da casa ortopédica, acompanhado pelo técnico que estava ao meu dispor, para me ensinar o essencial.
Entrava no ginásio e deparava-me com a prótese encostada a um canto ao fundo do ginásio, à espera que a experimentasse, fizesse uso dela. O técnico explicou-me detalhadamente como deveria calçar a prótese. Parecia-me algo complicado todo aquele processo e, quando experimentei, foi relativamente difícil.
Pela primeira vez, ao cabo de oito meses, estava novamente apoiado em dois membros inferiores, mas a sensação não era nada agradável. Sentia uma pressão enorme no coto, como se estivesse a ser sufocado pelo copo da prótese. Era como se um pássaro completamente livre, fosse enclausurado num cubículo onde não pudesse bater as asas…
Passados alguns instantes daquela sensação inicial, com a ajuda das barras laterais do ginásio consegui dar os primeiros passos, parecendo um robot. O técnico estava bastante atento e dava-me indicações no sentido de eu olhar para o espelho em frente e observar a minha marcha. Também me questionava acerca da afinação do joelho e da orientação do pé, procedendo aos retoques técnicos necessários.
Algum tempo depois, descalçava a prótese, sentindo um profundo alívio no meu coto e com uma voz bastante desagradável no meu interior que me questionava se alguma dia seria capaz de andar normalmente com aquilo.
O técnico explicou-me também que a construção da prótese não estava ainda completamente terminada. Faltava o revestimento da prótese, que apenas seria feito depois de um tempo experimental, para dar tempo a que me adaptasse melhor e a proceder a algumas afinações necessárias. Trazia a prótese comigo para ir utilizando diariamente, de forma gradual, principalmente durante as sessões de fisioterapia.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Demande au Soleil



Peço ao Sol, à Lua e às Estrelas que levem até Ti a força, a beleza, a intensidade, o sopro deste Amor que me inunda, que transborda no meu peito...

Escola


Deixar a escola foi bastante complicado para mim. Frequentava o 12º ano, estava no início do 2º período quando fui internado no Hospital de Guimarães. A escola era o meu habitat natural, raramente faltava às aulas. Gostava imenso do convívio com os meus colegas, de aprender cada vez mais, prestando muita atenção ao que os professores ensinavam.
Como fui assim internado de surpresa, não tive oportunidade para avisar os professores e os meus colegas. Durante aquele período em que estive em Guimarães, apenas tive visita de colegas meus em duas ocasiões. Sentia falta daquele convívio diário, do contacto com os meus parceiros da escola.
Nos momentos difíceis e quando mais precisamos dos amigos e, naquela altura, apercebi-me de que ainda não possuía grandes e verdadeiras amizades. Talvez esteja a ser injusto comigo mesmo e com os meus colegas daquela época, mas foi uma realidade que vivi naqueles momentos de sofrimento.

Num dia em que fui à escola conversar com o director de turma, no intervalo do primeiro tratamento de quimioterapia, cruzei-me com alguns colegas meus nas escadas da biblioteca e apercebi-me da expressão de receio que pairava nos rostos deles, quando se depararam com o meu estado bastante fragilizado. Não era o mesmo Hélder que eles estavam habituados e ver.
Nessa reunião com o director, foi decidido que teria de suspender o ano lectivo em curso, pois não seria possível completar os dois períodos necessários para concluir com sucesso o secundário. A escola era uma parte de mim que ficava para trás nesse momento.

Em Setembro, iniciava-se um novo ano lectivo e eu decidira enfrentar o desafio de regressar novamente às aulas logo no primeiro dia. Ainda me sentia algo frágil, pois havia terminado recentemente os ciclos de quimioterapia. Pode parecer um pouco aventureiro ou heróico, mas para mim a vontade de voltar à escola era imensa, o que me levou a encarar tudo com bastante naturalidade, sem preconceitos relativamente à minha nova imagem, perante a exposição de uma escola inteira.
Recordo-me desse dia em que entrava naquela escola como se fosse uma criança a caminho do seu primeiro dia de aulas. Possuía um grande entusiasmo por voltar a sentir o contacto com aquele lugar bem familiar. Estava em frente à porta da sala onde iria ter a primeira aula, rodeado pelos meus novos colegas de turma, quase todos eles desconhecidos para mim.
A professora chegava à sala de aula e ao passar por mim saudou-me, pois já tinha sido minha professora há cerca de dois anos. Nas aulas sentia um à vontade que não era comum nos anos lectivos anteriores. O meu sentido de humor estava bem mais apurado, pondo um pouco de parte a timidez que fazia parte da minha personalidade.
Alguns dos meus professores eram meus conhecidos, o que ajudou a manter um relacionamento bastante agradável naquela turma, visto que não me identificava com a personalidade de uma boa parte dos meus colegas, pois considerava que se preocupavam muito em estudar, existindo uma certa obsessão e rivalidade por causa das notas.
Apesar de ter estado quase um ano afastado dos livros e das aulas, foi fácil para mim esta readaptação à escola encarava aquilo tudo com um certo à vontade, talvez até um pouco em demasia. Não sentia qualquer espécie de discriminação ou preconceito. A administração da escola deu-me todo o apoio necessário para que me pudesse sentir o mais à vontade possível, embora não fosse preciso nada de especial. Uma das alterações que efectuaram, foi a distribuição de quase todas as aulas da minha turma nas salas do rés-do-chão, para evitar que eu tivesse que despender demasiado esforço físico a subir e descer escadas.
Apesar de andar imenso sobre as canadianas, os meus braços sentiam-se com força suficiente para transportar o meu corpo, percorrendo alguns quilómetros diários pela escola. Sentia-me muito bem, começava a relacionar-me melhor e a simpatizar com os meus colegas e, apesar de pouco estudar, os resultados e as notas apareciam com alguma naturalidade.
Talvez um dos meus maiores receios fosse a minha reacção às aulas de Educação Física. Adorava desporto e sempre participei com enorme dedicação nessas aulas, mas agora a realidade era bem diferente. Por incrível que possa parecer, assistia às aulas de Educação Física, vendo os meus colegas empenhados e divertidos nas diversas actividades desportivas sem sentir qualquer espécie de mágoa ou desilusão por não poder participar activamente naquelas actividades. Um pormenor que já não era tão agradável era o facto de ter de elaborar os relatórios de cada aula, mas era um elemento necessário para a minha avaliação.

Na primeira semana de férias da Páscoa, estava marcada uma visita de estudo para Lisboa. Desde que soube da existência desta viagem, que quis participar, sabendo que era organizada por um professor amigo, que fazia questão que eu fosse. Estava ainda a adaptar-me à prótese, mas foi uma semana bem intensa, em que me diverti imenso, e em que pude testar a resistência das minhas capacidades físicas. Para quem estava ainda a dar os primeiros passos com uma prótese, caminhei vários quilómetros, aproveitando e desfrutando ao máximo de cada lugar que visitamos em Lisboa.
O ano lectivo decorreu com bastante naturalidade, concluindo o 12º ano com relativa facilidade, preparando-me para enfrentar um novo desafio, o de ingressar na Universidade.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

We Carry On



Em determinados momentos da nossa vida temos que reaprender a viver, recomeçar da casa de partida, como se renascessemos novamente das cinzas... Precisamos de continuar a sorrir, a viver e não apenas a sobreviver...

Cirurgia II


Na manhã do segundo dia após a cirurgia, uma das médicas que assistiu à operação entrava pelo meu quarto. Depois de me saudar, deu-me um valente puxão de orelhas, dizendo-me com um ar bastante sério que eu podia ter morrido no bloco operatório, devido a não ter cumprido correctamente o período de jejum.
Recordava-me vagamente de ter bebido um pouco de água durante a noite, ainda que inconscientemente, pois tinha acordado durante o sono com bastante sede. Esse acto irreflectido havia provocado aquela convulsão de que me lembrava ter tido durante a cirurgia.
Seguidamente, com a ajuda das enfermeiras, a médica prosseguiu com o curativo. Reparava, pela primeira vez, como havia ficado o que restava da minha perna direita, quando foram removidas as ligaduras. Era uma enorme sutura que abrangia toda a extremidade do coto. Parecia que estava tudo em ordem e, depois da lavagem com soro fisiológico, colocaram novamente umas ligaduras em volta do coto. Tinham que ficar bem ajustadas, o que me provocou dores fortes, intensas e profundas, levando-me a gemer durante alguns instantes.
Após o curativo fiquei um pouco mal disposto, devido ao sofrimento que havia passado há momentos…

Passava os meus dias deitado na cama, com a companhia da minha querida mãe, a que se juntava o meu pai na hora das visitas. As enfermeiras mostravam-se muito simpáticas e prestáveis. De manhã, ajudavam-me com a minha higiene pessoal, cuidando muito bem de mim.
Apesar de estar sempre naquela posição e de o meu corpo manifestar algumas reacções um pouco desconfortáveis e incómodas, mantinha uma boa disposição diária, despertando com um belo sorriso para a vida logo que os raios de sol inundavam o meu quarto pela aurora matinal.
No primeiro Domingo em que estava internado, recebi inúmeras visitas de familiares chegados. Foi agradável sentir o calor humano de pessoas que me eram muito queridas. Todos ficavam surpreendidos com a minha disposição bastante alegre, o meu riso espontâneo e o sorriso doce que contagiava aquele quarto.

Uma semana após a cirurgia, logo pela manhã, entrava um enfermeiro cheio de energia pelo meu quarto, cumprimentando-me e dizendo em tom de provocação: “Menino Helder acabou-se a preguiça, toca a sair da cama…” O meu primeiro pensamento, após ouvir aquelas palavras, foi que só podia estar a brincar comigo, mas passados alguns minutos, entrava novamente no meu quarto com uma cadeira de rodas.
Era uma sensação muito estranha levantar-me daquela cama ao fim daquele tempo todo. Com a ajuda do enfermeiro conseguia sentar-me confortavelmente na cadeira de rodas e encetar um passeio pelos corredores daquele piso. Sentia uma sensação de liberdade incrível.
Lentamente começava a recuperar alguma independência que havia perdido, nas actividades mais banais do ser humano. Deslocar-me sozinho à casa de banho para cuidar da minha higiene pessoal e satisfazer as necessidades mais básicas, eram alguns dos exemplos que estava a reaprender a fazer sozinho.
O meu corpo não conseguia manter o equilíbrio natural quando me colocava em pé, pois agora faltava-me um membro de apoio. Em pouco tempo, passei da cadeira de rodas para as canadianas. Sentia uma maior auto-suficiência, podendo deslocar-me e movimentar-me com uma maior à vontade e liberdade.
Encarava os dias com maior naturalidade, tentando adaptar-me à nova realidade do meu corpo. A minha recuperação estava a decorrer muito bem, sentia-me forte física e psicologicamente. Durante os curativos, podia observar que, aparentemente, a sutura estava a cicatrizar normalmente. Apenas as reacções da minha pele aos adesivos me continuavam a incomodar bastante. Foi marcada uma consulta de dermatologia para que esta reacção cutânea, esta alergia ardente pudesse ser tratada. O dermatologista que me observou prescreveu-me uma pomada para aplicar duas vezes por dia. Comecei logo nesse mesmo dia com o tratamento, aplicando a pomada sobre a minha pele, sentindo um alívio reconfortante.

Cerca de quinze dias após o internamento, a equipa médica que acompanhava o meu processo decidia dar-me alta clínica, dizendo-me que tinha de regressar várias vezes para consultas onde iriam observar a evolução do meu caso. Estava pronto para regressar a casa com os meus pais, uma nova realidade estava à minha espera…

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Freedom of Choice



Várias vezes somos tentados a escolher o caminho mais fácil, a estrada menos árida...
Que a nossa liberdade de escolha nos conduza àquilo que realmente seja a nossa identidade pessoal...

Cirurgia I


Chegara o dia do internamento para a cirurgia. Na véspera da cirurgia, tinha uma consulta marcada, para ultimar todas as precauções e indicações a ter em conta. Após a consulta e todos os procedimentos naturais, fui conduzido ao piso 7, onde ficava o quarto que me iria acolher durante os próximos tempos. Tratava-se de um excelente quarto, com umas condições fantásticas. Instalei-me comodamente, despindo a roupa que trazia, vestindo um pijama bem confortável.
Após o almoço, fui autorizado a deslocar-me ao piso da quimioterapia. Rever algumas daquelas pessoas que eram bastante especiais, por todo o carinho e atenção que me tinham prestado era importante para mim naquele momento. Encontrei também o Nelson, um amigo que fizera no último internamento. Estava a efectuar mais um ciclo de quimioterapia, parecia bem disposto. Reparou que o meu cabelo recomeçara a nascer novamente, ficando um pouco radiante com esse pormenor, visto que ele sentia falta do cabelo que perdera. Disse-lhe que brevemente ele recuperaria o seu forte cabelo.
Regressei ao meu quarto, onde apenas comi uma sopa ao jantar, pois tinha que estar em jejum até depois da cirurgia. No final do jantar, despedi-me dos meus pais. O meu serão foi agradável, assistindo um pouco aos programas de televisão que passavam, antes de fazer a minha oração pessoal, conversando ternamente com Deus, e repousar a cabeça na almofada para adormecer.
Desfrutei de uma excelente noite, dormi profundamente, despertando muito bem disposto com os raios de sol que invadiam o meu quarto pela janela. Depois de um breve preguiçar, fui cuidar da minha higiene pessoal.
As enfermeiras chegaram pouco depois, retribuindo a minha excelente disposição com sorrisos bem abertos. Deram-me a medicação prescrita pelos médicos e começaram os preparativos para a cirurgia. Desinfectaram e depilaram a minha perna direita, aliviando a única espécie de ansiedade que residia no meu interior. Por muito disparatado que possa parecer, tinha um certo receio que os médicos se enganassem na perna…
Chegara a hora da cirurgia, estava prontíssimo e era conduzindo na minha cama para o bloco operatório pelo pessoal auxiliar. Foi uma viagem não muito longa e ao fim de uns breves minutos chegava ao local onde, finalmente, iriam retirar-me uma parte de mim que estava doente e enferma.
Estava um número considerável de pessoas no bloco operatório. Sentia-me seguro nas mãos daqueles médicos, enfermeiros e assistentes e sentindo a força protectora do Amor de Deus. Quando a anestesista me perguntou se apenas queria a epidural, podendo assistir a tudo o que se passava durante a cirurgia ou se queria entrar num sono profundo, eu optei pela segunda alternativa. Passados uns breves instantes, adormecia profundamente.

Algumas horas depois acordava na sala de recobro, sentindo frio e ainda completamente entorpecido, devido ao efeito dormente da anestesia. Espreitei por baixo do lençol que me cobria e verifiquei que grande parte da minha perna direita já não estava no meu corpo. Permaneci ali, naquela sala fria, por mais alguns longos minutos.
Vieram buscar-me, levando-me de regresso ao meu quarto, onde os meus pais já me aguardavam. Aparentavam um aspecto um pouco pesado, mas sorriram levemente quando me viram chegar. Não me recordo das palavras que trocamos, pois ainda me sentia muito atordoado, mas sentia aquele afecto e amor que a presença dos meus pais me transmitia naquele momento.
Não apreciava nada aquela sensação pós-anestesia, afectava bastante o meu humor e não permitia que conseguisse manter os olhos abertos durante algum tempo seguido. À parte este efeito da anestesia, sentia-me bem, não tinha dores de espécie alguma.
A noite chegava lentamente, apagando-se a luz do sol que entrava pela janela do meu quarto. O horário da visita chegava ao fim, despedia-me do meu pai que tinha de regressar a casa. O jantar foi servido no quarto, tive a companhia da minha mãe que ia passar a noite comigo. O jantar foi agradável, apesar da posição pouco confortável em que me encontrava.
A minha noite foi um verdadeiro inferno, pois o meu corpo começava a fazer reacção ao adesivo que tinha nas costas, ao longo da espinha dorsal, devido à epidural. Sentia uma urticária intensa, consumindo o meu corpo, parecia que a minha pele estava em chamas. Passei a noite em claro, não dando descanso à minha mãe e às enfermeiras, que faziam de tudo para tentar aliviar o meu sofrimento.
Aquela reacção prolongou-se pelos dias seguintes, era difícil conseguir aliviar aquela sensação ardente, pois o adesivo precisava de continuar colado à minha pele.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Luz


Ficava agora internado por tempo indeterminado, para curar uma infecção e uma grave anemia. A minha situação actual era preocupante, os meus valores sanguíneos estavam demasiado baixos, tinha perdido cerca de quinze quilos e uma infecção com origem no golpe que tinha no joelho, resultado da biopsia que havia feito.
Nos primeiros dias, o meu corpo estava alimentado a soro e medicado por um antibiótico. O meu organismo estava demasiado frágil, com poucas defesas imunológicas, e por isso, sujeito a ser contaminado mais facilmente por infecções. Para ajudar a recuperar os meus valores sanguíneos e as defesas imunológicas do meu organismo, fui sujeito a transfusões de sangue.
O meu corpo estava a reagir bem aos tratamentos a que estava a ser sujeito, melhorava a cada dia que passava. Começava a alimentar-me de uma forma mais normal, conseguia fazer uma refeição decente. A comida servida era agradável e à noite o meu jantar era caseiro. A minha mãe mimava-me todos os dias com um dos seus deliciosos cozinhados.
Durante este período de internamento, ganhei uma cumplicidade e amizade interessante com o pessoal de enfermagem. Eram uma equipa de enfermeiros bastante nova e com uma humanidade e disponibilidade incrível. À noite passava algum tempo a conversar com ele, um simples pormenor que me ajudava a passar o tempo e a animar-me um pouco.
Pela enfermaria onde estava, iam entrando e saindo pacientes para efectuarem os respectivos ciclos de quimioterapia. Criei uma empatia agradável com alguns deles. Partilhámos alguns dos nossos problemas, das diferentes reacções aos tratamentos, das nossas mágoas, das nossas alegrias. Tentávamos ajudar-nos uns aos outros a ultrapassar aquele tempo de sofrimento da melhor forma possível. Conheci um rapaz da minha idade que estava a fazer tratamento a um tumor nos testículos. Já tinha sido sujeito à cirurgia para retirar um testículo e agora estava a proceder à quimioterapia de forma a eliminar e evitar a propagação de células cancerígenas. Estava a reagir bem aos tratamentos, mas sentia-se algo incomodado com a perda de cabelo.

Fazia três semanas que havia sido internado, estava a reagir muito bem, o meu corpo recuperara grande parte da energia que havia perdido. O meu aspecto estava agora mais agradável, o meu rosto apresentava-se com uma cor mais natural, mais viva, o meu peso tinha aumentado, recuperando alguns quilos.
Havia apenas um pormenor que não tinha evoluído para melhor. Quando me faziam o curativo, reparava que o aspecto daquela ferida no meu joelho era cada vez mais desagradável. O golpe continuava sem querer cicatrizar. Segundo os médicos, este pormenor indicava que as células cancerígenas podiam não estar a reagir ao tratamento. Ficava ansioso quando chegava a hora do curativo, pois queria ver se havia alguma evolução naquela ferida. Por vezes, parecia que estava com melhor aspecto, mas não passava de pura ilusão.
No final da terceira semana de internamento, estava marcado uma consulta de grupo logo pela manhã. Fui levado em cadeira de rodas por uma auxiliar para o local onde se efectuavam essas consultas. Depois de aguardar um pouco na sala de espera, chegava a minha vez de estar presente em frente à equipa médica que acompanhava todo o meu processo.
Entrei naquela sala e fiquei perante um conjunto de rostos do qual apenas alguns me estão presentes na memória. Um dos médicos presentes proferiu as seguintes palavras: “Helder, infelizmente, o tumor presente no seu joelho direito não reagiu ao tratamento de quimioterapia. Perante este facto, a única solução para que possa ficar curado passa pela amputação do seu membro inferior direito acima do joelho.”
Apesar de ter consciência, desde o dia em que entrei no IPO, onde naquela mesma sala me foi dito que aquela era uma das possibilidades a ter em conta para a minha cura, aquelas palavras foram como que uma bomba que atordoou todo o meu ser. Foi um tremendo abalo, apenas consegui proferir algumas palavras para perguntar se não haveria outra hipótese a considerar. Depois disso, um silêncio profundo emergia do meu interior e as lágrimas de dor começaram a deslizar pelo meu rosto.
Fui levado novamente para a sala de espera, aguardando que a auxiliar me viesse buscar para regressar ao piso onde estava internado. Parecia que o mundo inteiro acabara de desabar sobre o meu corpo, estava a viver um enorme pesadelo. A auxiliar veio buscar-me e, ao reparar no meu estado, também não conseguiu dirigir-me qualquer palavra.
Parecia que mais nada existia à minha volta, aquelas palavras continuavam a martelar o meu pensamento, estava em profundo estado de choque. Chegava à minha enfermaria, na hora de almoço, ainda a chorar silenciosamente. Os meus colegas de quarto aperceberam-se logo do meu estado de terror e respeitaram o meu silêncio. Tinha o tabuleiro do almoço ao lado da minha cama. Por incrível que possa parecer, sentei-me na borda da minha cama, coloquei o tabuleiro diante de mim e comecei a comer. As lágrimas caíam pelo meu rosto e misturavam-se com a comida. Tinha um nó bastante apertado na garganta, a comida mal conseguia passar.
Sentia-me completamente revoltado, não era justo um jovem de 17 anos receber uma notícia daquelas. Quando terminei de almoçar, como tinha recebido alta hospitalar, decidi vestir-me a arrumar as minhas coisas, esperando que os meus pais chegassem para regressar a casa.
A minha cama estava situada próximo da porta da enfermaria, por isso reparei na chegada dos meus pais quando eles ainda caminhavam pelo corredor. Quando chegaram perto de mim e me viram naquele estado perguntaram o que se tinha passado. De uma forma um pouco brusca, respondi que os médicos me tinham dito que ia ficar sem a minha perna. A minha mãe lançou-se a mim a chorar efusivamente, entrando em profundo estado de choque. O meu pai permanecia um pouco mais afastado, num profundo silêncio de sofrimento. As enfermeiras trouxeram um calmante para a minha mãe. Continuávamos ambos abraçados a chorar. Fazia um esforço para confortar a minha mãe, apesar de todo o meu sofrimento.
Passado algum tempo, estávamos um pouco mais calmos, a minha mãe parecia estar a recuperar daquele tremendo choque. Já no corredor, ouvi as palavras de um médico que talvez despertaram uma luz inexplicável dentro de mim. Após algumas considerações sobre o que se ia passar, ele confrontou-me e disse-me: “Helder, se queres viver, é este o caminho que tens de percorrer…”

Na tarde daquele dia, respirava novamente o ar puro e sentia a luz do Sol a incidir directamente sobre o meu ser, depois de três semanas de internamento. Regressava a casa com os meus pais e, por milagre de Deus, toda aquela revolta que havia sentido uns momentos atrás tinha sido banida do meu interior. No meu rosto despertava um sorriso ingénuo, doce e proferia palavras de conforto e esperança no diálogo que mantinha com os meus pais.
Talvez tenha assimilado que o mais importante era viver, mesmo que para isso tivesse que enfrentar um árduo e doloroso caminho…

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Vanishing



Existem momentos em que caminhamos nas trevas, à beira do abismo... Nasce uma vontade de fechar os olhos, apagar e desaparecer...

Calvário IV


Terminado o tempo de repouso em casa, regressava ao IPO para um novo internamento, para mais uma dose daquele líquido avermelhado. Cheguei bem cedo, mas logo que lá entrei já sentia enjoos, mesmo sem sentir o cheiro da comida. Constatei que tinha adquirido um trauma psicológico como reacção ao que tinha passado no primeiro tratamento.
Tinha uma pequena cirurgia marcada para essa manhã. Ia ser colocado no meu peito um êmbolo para fazer a infusão da quimioterapia através de uma veia mais forte, visto que as veias das mãos não aguentam a agressão provocada. Fui conduzido ao bloco operatório, onde me atordoaram com a anestesia e realizaram a cirurgia. Quando acordei estava na sala de recobro, sentia uma sensação muita estranha, um entorpecimento total do corpo, provocado pelo efeito anestésico. Após o tempo de recuperação naquela sala, regressei ao piso 3 para recomeçar a quimioterapia.
Esta nova semana de tratamento foi uma batalha bastante árdua, em que a fraqueza e o desânimo se apoderaram do meu ser. Estava mais isolado, pois a enfermaria era apenas de dois pacientes. Ao meu lado estava um senhor com um tumor nos intestinos. Viria a ter conhecimento do seu falecimento uns dias mais tarde.
Os dias passavam muito lentamente, os efeitos da quimioterapia estavam cada vez mais visíveis em todo o meu ser. Os enjoos continuavam com bastante frequência, fazia febre, sentia calafrios por todo o meu corpo. Era tratado com muita atenção e carinho, mas era apenas uma gota num profundo oceano de sofrimento.
Chegara ao fim a segunda fase de quimioterapia, voltava a casa demasiado frágil para conseguir reunir forças suficientes para um novo tratamento. Tinha a noção que precisava de me alimentar, que era necessário arranjar forças para enfrentar as próximas etapas, mas como o iria conseguir era uma pergunta para a qual não possuía alguma resposta.
Poucos dias consegui resistir em casa, pois a seguir à Páscoa, aconteceu o que seria mais previsível. Cheguei ao limite das minhas capacidades, bati no fundo. Num dia, comecei a sangrar pelo nariz o que acontecia com relativa frequência, mas desta vez não estava a conseguir estancar o escorrimento nasal. Desloquei-me ao Centro de Saúde, onde, talvez devido ao meu estado de saúde, me senti mal atendido pela enfermeira e pela médica de serviço. Saí porta fora sem discutir e dirigi-me a uma clínica de uma enfermeira conhecida, onde fui recebido com carinho e tratado com dignidade. A enfermeira conseguiu fazer parar o escorrimento do sangue e regressei a casa sentindo-me ainda mais fraco. O cansaço era tanto que perdia a visão quando me confrontava directamente com o sol.
Nesse mesmo dia à noite, quando estava deitado para dormir, sentia o meu corpo demasiado quente. Através da medição do termómetro, constatei que estava com febre bastante alta.
Liguei para o IPO a comunicar a minha situação e disseram-me que o melhor seria dirigir-me imediatamente para lá. Vesti-me e fui de emergência para o Porto. Cada minuto perdido poderia significar um agravamento maior do meu estado de saúde.
O meu corpo não aguentou face ao tratamento da quimioterapia. Precisava de saber qual a gravidade do meu estado actual e quais seriam as próximas etapas a que teria de me submeter…

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Return of Innocence



A aridez do deserto que várias vezes atravessamos, que sentimos, leva-nos a desvanecer, a vacilar...
A máscara, a ilusão perante o sofrimento não é uma solução... Não devemos ter medo de chorar, de revelar a nossa fraqueza...

Calvário III


Regressava a casa com os meus pais, num estado degradante, o meu rosto parecia a imagem pálida de um fantasma, mas com a firme convicção de que nas próximas três semanas teria de enfrentar uma batalha para recuperar forças e ânimo para o próximo ciclo de quimioterapia.
Sentir-me novamente em casa era sinónimo de uma serenidade de que o meu ser estava mesmo a precisar. Durante os primeiros dias, os enjoos continuavam a aparecer com frequência, sentar-me à mesa para fazer uma refeição era um momento doloroso, pois sentia-me incapaz de comer. Fazia um grande esforço para me alimentar, pois tinha bem presente a noção de que era fundamental alimentar-me. Para recuperar os meus níveis sanguíneos, tentava também ingerir um xarope à base de Aloé Vera.
Na primeira semana em casa, surgiu outro dos efeitos colaterais da quimioterapia, para o qual eu já estava alertado. Um dia, ao acordar, deparei-me com a quantidade de cabelo que tinha deixado durante a noite na minha almofada. Percebi então que as minhas raízes capilares haviam sido muito enfraquecidas e iria perder todo o meu vasto cabelo. Era uma sensação estranha passar a mão pelo cabelo e ficar com grandes madeixas soltas na mão. Decidi então que o melhor seria ir à minha cabeleireira e passar o cabelo a pente um, para evitar que o meu cabelo ficasse solto por todo o lado. Ganhava agora um novo look, algo que era novo para mim, pois nunca tinha aderido a algum tipo de cortes radicais no meu cabelo.
O facto de perder o meu cabelo não me preocupava, seria inútil gastar as poucas forças que me restavam a irritar-me com esse pormenor. Sentia o olhar das pessoas quando me cruzava com alguém na rua, mas era algo que não me magoava, pois apesar de me sentir observado com um olhar invasor, tinha a noção de que era sobretudo olhado por curiosidade e por ignorância. Não podia julgar os outros por desconhecerem esta realidade diferente e pouco comum numa terra pequena.
Passava a maior parte do tempo em casa, pois além do cansaço também era frequente sentir frio quando saía à rua. Deslocava-me apenas ao Centro de Saúde, para que me fizessem o curativo ao joelho. Durante os curativos constatava que o golpe continuava sem querer cicatrizar, sinal de que as minhas células continuavam doentes.
Com o passar dos dias, os enjoos foram desaparecendo gradualmente e já recomeçava a sentir aquele apetite normal para me sentar à mesa e desfrutar de uma refeição normal. Este aspecto trazia-me algum ânimo e fazia com que começasse a recuperar algumas forças. Por outro lado, tinha a noção de que estava próximo o próximo ciclo de quimioterapia, o que me deixava algo consternado.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Schism



Mesmo que as peças se quebrem, podemos voltar a encaixá-las...
A poesia, a beleza reside no âmago de cada um de nós...

Calvário II


Numa manhã fria de Fevereiro, dava entrada no IPO, para iniciar a primeira etapa de quimioterapia. Após efectuar os procedimentos normais de um internamento hospitalar, desloquei-me a uma sala, onde uma enfermeira me retirou sangue para proceder às análises necessárias.
Seguidamente, fui conduzido ao local onde iria passar os próximos dias. Quando entrei naquela enfermaria, deparei-me com um ambiente francamente desolador, via corpos enfraquecidos e rostos desanimados.
Dirigi-me para a cama que estava destinada a acolher o meu corpo, instalando-me ao lado da janela, podendo receber a luz emanada pelo sol. Era o sexto paciente daquela sala, o único que estava a iniciar todo aquele processo.
Depois de comodamente instalado, as enfermeiras vieram ligar aquele soro avermelhado directamente às veias da minha mão. Sentia uma sensação fria quando aquele soro penetrava o meu ser. O meu organismo era invadido por algo estranho e desconhecido, programado por uma máquina verde que comandava a velocidade e dose da infusão.
Ao meu lado estavam dois jovens como eu que já tinham passado por algumas etapas do tratamento. Estranhei bastante os seus pedidos para o almoço, quando a auxiliar veio trazer a ementa. Ficavam-se apenas por iogurtes e fruta, rejeitando os pratos à escolha.

Os dois primeiros dias decorriam com normalidade, sem grandes sobressaltos. Passava a maior parte do tempo deitado na minha cama, ouvindo música, observando o que se passava na enfermaria e recebendo a visita diária dos meus pais. Apenas era desligado da máquina, de manhã, para cuidar da minha higiene pessoal.
Pontualmente, as minhas veias começaram a ceder e tinha de ser picado novamente a fim de encontrar uma nova veia para poder receber aquela droga. As minhas mãos começavam a ficar doridas e enfraquecidas perante a violenta agressão do soro que as percorria.
Ao terceiro dia, surgiu um dos primeiros efeitos colaterais da quimioterapia. Quando chegou a hora do jantar, e tendo o tabuleiro com a comida à minha frente, senti-me indisposto. O cheiro da comida estava a provocar-me uma forte indisposição, chegando mesmo a ter enjoos. Percebi neste momento o porquê do sentido dos iogurtes e da fruta pedidos pelos meus colegas para as refeições.
Os dias que se seguiram foram muito complicados, quando se aproximava a hora das refeições era uma sensação terrível. Jamais havia sentido esta sensação de mal-estar provocada pela comida. Sentia o arrastar do tempo, as horas eram demasiado longas para que o meu corpo pudesse resistir. Os enjoos tornavam-se cada vez mais frequentes e intensos, o meu organismo rejeitava os alimentos. Eram quase sempre inúteis todos os esforços que operava para comer. Optava por alimentos mais frescos, sem cheiros fortes, mas mesmo assim era complicado conseguir alimentar-me.
As minhas forças diminuíam à medida que o tempo avançava, os meus membros sentiam dificuldade em responder aos movimentos necessários para me mover com as canadianas. O meu desejo, o meu único pensamento era que a dose programada terminasse o mais cedo possível, para aliviar um pouco aquele martírio. A cada dia que passava ficava mais impaciente, perguntava com frequência às enfermeiras quanto tempo ainda faltava e ficava sempre desiludido com a resposta obtida. Chegava a pedir-lhes para aumentarem a velocidade de infusão programada, para que pudesse regressar o quanto antes ao meu querido lar.
Aquele veneno continuava a percorrer as minhas veias e estava a destruir-me à medida que me ia consumindo. As minhas veias eram demasiado frágeis para resistir a tamanha agressão. As enfermeiras já dificilmente conseguiam encontrar uma veia nas minhas mãos para picar. As minhas mãos estavam bastante feridas, com vários hematomas.
Ao sétimo dia de internamento, chegava finalmente o fim do primeiro ciclo de quimioterapia. As últimas horas foram pesadas, o meu corpo estava de rastos, sentia reacções estranhas e fora do meu controlo no meu organismo. Quando reparei nas últimas gotas daquele líquido a correr pelo tubo em direcção às minhas veias senti um grande alívio.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Gravity



A travessia do deserto é um longo e penoso caminho, mas leva-nos aos confins do nosso Ser... Leva-nos a descobrir o que é realmente importante, a desejar saborear cada segundo desse maravilhoso dom que é a Vida...

Calvário I


Numa manhã de uma sexta-feira, saía de casa em direcção ao IPO no Porto, um lugar onde jamais havia estado. A viagem demorou cerca de uma hora, com um trânsito caótico à chegada. Aquela manhã fora bastante preenchida, quase numa correria, percorrendo alguns sectores daquele hospital.
A última e mais importante paragem daquela manhã, foi na sala reservada às consultas de grupo. Enquanto aguardava pela minha vez, via sair de lá de dentro pessoas a chorar, em verdadeiros prantos. Chamaram pelo meu nome, entrava naquela sala e ficava perante uma equipa de médicos que me explicaram detalhadamente qual a doença que padecia e quais os tratamentos a que teria de me submeter. Tudo num discurso bastante frontal, utilizando uma linguagem bem acessível e perceptível ao mais comum dos mortais.
Explicaram-me que tinha um tumor maligno no joelho direito, provocado por uma incorrecta regeneração celular e que teria de efectuar alguns ciclos de quimioterapia para tentar queimar essas células cancerígenas. Também me elucidaram para a hipótese bem real de poder perder o membro inferior direito, caso os tratamentos de quimioterapia não tivessem sucesso.

Estava de regresso a casa, depois de uma manhã intensa, em que finalmente parecia existir uma luz ao fundo do túnel. O primeiro tratamento começava já a seguir ao fim-de-semana. Parecia estar tudo a decorrer tudo muito rapidamente, depois de uma longa travessia por um deserto árido.
Num curto espaço de tempo consegui ficar esclarecido acerca da minha situação, aquilo a que me teria de submeter e o que me poderia suceder. É incrível a diferença de atitude e tratamento em relação ao lugar onde estivera internado cerca de um mês.


A quimioterapia foi o processo mais cruel que tive de enfrentar. O meu corpo conseguiu apenas resistir a dois ciclos do tratamento que estava planeado. Um tratamento bastante agressivo cujo objectivo era eliminar as células cancerosas do meu organismo, mas acarreta os chamados efeitos colaterais que limitam e degradam as funções do nosso organismo. É necessário reunir forças no nosso interior, para conseguir percorrer um longo deserto, atravessar um longo calvário.
Cada ciclo de quimioterapia correspondia a uma semana de internamento terrível, apesar de toda a bondade e generosidade das pessoas que estavam presentes e me ajudavam diariamente.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Roads



Momentos... Caminhos...

Montariol



Era uma manhã amena de Sábado, aquela em que com o Pároco da minha freguesia e o meu pai me deslocava para Braga. Acabara de sair do Hospital de Guimarães e ia encontrar-me com uma pessoa amiga do Padre, alguém que eu desconhecia.
Chegávamos a um imponente edifício localizado na encosta de um monte, retirado da confusão da cidade. Era um belo lugar onde se respirava ar puro e se sentia a harmonia da Natureza. No Colégio de Montariol, fomos recebidos por um frade que nos conduziu à pessoa que procurávamos. Feitas as devidas apresentações e saudações, fiquei perante um homem que vestia uma gasta bata branca no lugar do hábito Franciscano.
Passeávamos os quatro pelo pátio do colégio, enquanto o Frei dialogava um pouco com o Padre. Pude observar que as traseiras daquele edifício davam acesso directo para o monte onde moravam árvores de grande porte e uma espécie de cactos florescia alegremente.
Regressamos ao interior do colégio onde o Frei me convidou a subir com ele a um piso superior. O elevador conduziu-nos ao andar desejado e segui os passos daquele homem iluminado. Entramos num pequeno quarto onde nos sentamos comodamente sobre a cama, observando-nos mutuamente.
Começou a conversar comigo, perguntando-me se estava assustado, ao que respondi negativamente, pois desconhecia o diagnóstico exacto do meu estado de saúde. Com aquela voz profunda, penetrante, colocou-me uma questão curiosa que me deixou um pouco admirado. Ao ouvir as suas palavras interrogar-me acerca da minha vaidade com o cabelo, respondi afirmativamente, que era um pouco vaidoso com o meu aspecto.
Prontamente e num tom bastante afável, disse-me para me mentalizar que iria perder todo o meu cabelo, mas que depois voltaria a nascer e crescer ainda mais forte. A minha completa ingenuidade levou a que reagisse com aparente serenidade perante aquela constatação.
Continuamos a conversar durante mais algum tempo e descemos ao rés-do-chão, onde, após colher algumas folhas daqueles cactos, preparou um xarope caseiro para eu levar para casa. O aspecto daquela mistela não era lá muito agradável, mas se era para me ajudar esse pormenor não era importante. Explicou-me cuidadosamente como haveria de tomar o xarope durante o intervalo dos tratamentos a que eu me iria submeter e que eu desconhecia por completo.
Despedimo-nos do Frei, agradecendo toda a generosidade e hospitalidade demonstrada, prometendo voltar brevemente. Regressava a casa, com aquele momento bem marcado no meu pensamento, no meu ser…

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Imagine



Deixemo-nos levar nas asas da imaginação... Enquanto acreditarmos podemos sonhar com um despertar na ternura de um sorriso...

Prólogo


Há algum tempo que havia despertado em mim o desejo de escrever sobre uma etapa muito importante da minha vida. Este desejo permaneceu como que adormecido em mim, até que há uns meses atrás surgiu alguém muito especial na minha vida que me encorajou e apoiou delicadamente a tentar escrever e partilhar esta fase da minha vida.

Aos 16 anos, era um adolescente comum a muitos outros, cuja vida se passava essencialmente entre a casa e a escola. Era daqueles alunos aplicados e empenhados em obter bons resultados escolares, que gostava da conviver e ajudar os colegas da escola, aproveitando ao máximo todo o tempo que passava na escola.
Era um rapaz tímido e algo reservado principalmente na abordagem com as raparigas, apesar de ser bastante sociável com as minhas colegas, ainda não tinha despertado em mim aquela curiosidade natural para os namoros da adolescência, preferindo o convívio com os meus amigos, ocupando uma grande parte do meu tempo livre com o desporto, sobretudo praticando futebol.

A minha simples e humilde existência conheceu um rumo diferente aos 17 anos. O dia do meu aniversário fica marcado pela tarde passada no corredor das urgências do hospital. Após várias horas de espera, fui observado pela equipa médica de serviço, realizei uns exames médicos e foi-me dito para voltar na segunda-feira a fim de realizar mais exames ao joelho direito.
Havia já algum tempo que o meu joelho direito não respondia da melhor forma quando sujeito ao exercício físico. Há umas semanas atrás, no mesmo hospital, já me havia sido diagnosticado uma simples tendinite, mas as dores continuavam após o tratamento indicado.
Na segunda-feira, no lugar de me deslocar para a escola, dirigi-me sozinho para o hospital. Na recepção foi-me indicado o 10º Piso – Ortopedia. Depois de uns minutos à espera, dizem-me que, afinal, vou ser internado. Nem queria acreditar…
Na manhã do dia 11 de Janeiro de 1999, era internado no piso 10 do Hospital de Guimarães. Estive naquele local cerca de um mês, onde, após vários exames e uma biopsia, não tiveram a ousadia de me conseguirem explicar qual a doença de que padecia. Perante tamanha falta de profissionalismo, assinei o termo de responsabilidade e abandonei aquele lugar. Entrara pelo meu próprio pé, mas apenas consegui sair com o auxílio das canadianas.