segunda-feira, 26 de maio de 2008

Nothing Else Matters



Eternamente confiando naquilo que realmente somos, nas nossas capacidades... Em cada amanhecer, para nós algo de novo... Uma mente aberta para uma concepção diferente... De mãos entrelaçadas, sorrisos e olhares cúmplices... E nada mais importa...

Epílogo


Passados cerca de 8 anos, não me sinto um herói por ter vencido uma doença como o cancro. Sinto que venci uma batalha importante da minha vida, com muito sofrimento e dor, mas acima de tudo com muita esperança. Esperança num amanhã que podemos construir com as nossas mãos, através das opções que tomamos na nossa vida.
Mais importante do que sobreviver, eu decidi que queria viver, acordar todos os dias com um sorriso no rosto, deixar-me inundar pela luz do sol e caminhar na estrada da vida. A força interior que desabrochou em mim, permitiu que encarasse a vida com outro olhar, aceitando o meu corpo tal como ele é, conseguindo vencer as barreiras que uma deficiência pode causar, ultrapassando os meus próprios limites.
Para mim o essencial é correr atrás do sonho, viver a beleza de cada momento, de cada dia, lutando pelos nossos objectivos pessoais. Quando sentimos algo em nós mais forte, capaz de vencer cada obstáculo que surge no nosso caminho, é difícil perder a alegria de viver, por muito complicada que seja a caminhada que temos de enfrentar.
Aceitar as nossas diferenças e ter consciência das dificuldades que enfrentamos que temos de lidar no dia a dia são os alicerces para construirmos a nossa felicidade. Precisamos de descobrir a nossa verdadeira identidade, no âmago do nosso ser, a total liberdade que existe em nós que nos faz voar e sentir a beleza da vida.


Cada um de nós pode ir mais além, tendo noção das suas capacidades, acreditando no seu verdadeiro potencial, evitando perder tempo em lamentar as contrariedades que surgem na nossa caminhada.
Com este simples testemunho, quero partilhar um pedaço de mim, algo que muito contribuiu para a pessoa que sou hoje. Aprendi e tenho sempre presente que a vida é um dom, um dom que não podemos desperdiçar.
Este dom da vida deve ser também colocado ao serviço dos outros, não o fechando na concha do nosso egoísmo. A nossa vida, as capacidades que possuímos devem ser partilhadas com as pessoas que nos rodeiam, fomentando a comunhão com o próximo.
Ajudar os outros, contribuir para que no rosto das pessoas mais necessitadas e excluídas da nossa sociedade floresça um sorriso, é algo que me preenche e faz sorrir. É com pequenos gestos que conseguimos tornar o mundo num lugar mais agradável.
A vida tem um sentido, podemos demorar muito tempo a descobrir esse mesmo sentido, o caminho da felicidade, mas não podemos desistir, não podemos baixar os braços perante as barreiras e obstáculos que vão surgindo. Na maioria das vezes, tentamos encontrar a felicidade no exterior, naquilo que nos rodeia, e acabamos na superficialidade, obtendo apenas pequenos momentos de êxtase, mas fugindo da nossa verdadeira identidade, acabando por cair num vazio profundo. A verdadeira felicidade reside em cada um de nós, na medida de se sentir em harmonia consigo próprio, descobrindo o seu verdadeiro ‘Eu’ no seu interior, podendo dessa forma partilhá-lo com os outros, resistindo às tempestades e adversidades que aparecem no nosso caminhar.
Sinto que ainda estou apenas no início dessa caminhada, dessa aventura que é viver, tendo consciência que cada amanhecer é um novo desafio, uma nova etapa, um novo dia para Amar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Prótese II


Durante os primeiros dias, apenas colocava a prótese durante cerca de uma hora, para ir adaptando o coto àquela forte pressão e esforço constante. Aproveitava as sessões de fisioterapia para calçar a prótese e efectuar os exercícios de equilíbrio e adaptação aconselhados pelo fisioterapeuta que me acompanhava. Era sobretudo essencial que nestes primeiros dias fosse ganhando alguma consistência, apoiando o peso do meu corpo sobre a nova perna, para que desenvolvesse os músculos e a força necessária para conseguir caminhar normalmente.
A adaptação começava a ser uma realidade sorridente, os exercícios de marcha com o apoio das barras laterais começavam a surtir efeito. Além das sessões de fisioterapia, também comecei a colocar a prótese em casa e a caminhar durante algum tempo com o apoio das canadianas. Ao fim de poucos dias, já me sentia mais à vontade com a prótese e apenas utilizava uma canadiana para me apoiar durante os meus passos.
Tanto o fisioterapeuta como o técnico aconselhavam-me a ir calmamente, a ser paciente, para que durante este processo de adaptação não adquirisse certos hábitos que prejudicassem a naturalidade da minha marcha num futuro próximo.
Passado cerca de um mês já conseguia caminhar mais naturalmente, sem a ajuda das canadianas. Tentava aperfeiçoar diariamente a minha marcha e sentia uma grande alegria e entusiasmo por estar a conseguir vencer mais uma batalha que ao início parecia bastante complicada.

Com o decorrer do tempo, fui adaptando-me cada vez melhor à minha nova realidade, habituando-me com naturalidade a todos os mecanismos envolventes ao uso da prótese. Calçar a prótese começava a ser tão natural como calçar um par de sapatos. Conseguia andar quase todo o dia com a prótese, aguentando o esforço e um ritmo diário algo intenso sem sentir dores ou acusar cansaço.
Era uma sensação plena de liberdade poder caminhar novamente sobre as minhas pernas, poder passear com liberdade. Apenas sentia um pouco de dificuldade quando andava sobre pisos irregulares ou passeios com subidas ou descidas acentuadas, o que era normal segundo o que o técnico me havia dito.
É claro que existem algumas limitações físicas, algumas barreiras que o uso da prótese não consegue vencer, mas é uma realidade que não impede em nada de viver intensamente o meu dia a dia, ou que me faça sentir inferior e infeliz. Além de conseguir adaptar-me à nova realidade física da prótese e todos os cuidados necessários ao seu uso, o mais importante é vencer as barreiras mais difíceis, os preconceitos e barreiras interiores. Ter consciência das nossas limitações e acreditar que esse facto não é impedimento para seguir em frente e lutar pela felicidade como outro ser humano qualquer é o factor mais importante para que consiga ultrapassar todos os obstáculos que vão surgindo diariamente.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

In My Place



Muitas vezes sentimo-nos impotentes perante certas barreiras que precisamos de vencer... Então o desânimo, a desilusão, o medo, apoderam-se do nosso ser... É necessário parar, meditar, reflectir, descobrir forças, energias, lutar para conseguir contornar, vencer essas barreiras...

Prótese I


Após cerca de sete meses da cirurgia, do dia em que ficara sem a perna direita, é que estava finalmente pronto para avançar para a prótese. Na consulta de medicina física, a médica, depois de me examinar e verificar a evolução do meu coto, disse-me que chegara o momento de prescrever a prótese. Era um momento muito importante para mim, pois aproximava-se o próximo passo da minha completa recuperação.
Passado cerca de um mês, recebia uma chamada de uma casa ortopédica com a finalidade de marcar o dia e a hora para fazer os moldes e tirar medidas. Crescia em mim uma certa ansiedade por estar prestes a descobrir algo que desconhecia e iria ser fundamental para os dias da minha vida.
Na semana seguinte, seguia em direcção ao Porto, a caminho do local onde ficava a casa ortopédica onde estava marcado para o início da manhã a sessão de testes para efectuar os moldes necessários à construção da prótese. Foi um pouco complicado conseguir descobrir o local, mas após alguma confusão no trânsito e umas paragens para perguntar indicações a transeuntes.
Finalmente chegava ao local pretendido, dirigindo-me à recepção para efectuar os requisitos necessários para a abertura do meu processo. Depois das burocracias realizadas, fui recebido por um técnico ainda relativamente jovem e muito bem disposto. Cumprimentou-me e apresentou-se colocando-me desde logo bastante à vontade, criando desde logo uma empatia agradável entre nós.
A manhã foi muito preenchida a tirar um número infindável de medidas e a efectuar moldes. Era tudo um pouco estranho para mim, observava todos aqueles processos e técnicas com bastante curiosidade e tentava ser o mais prestável possível ao que me pediam para fazer. Explicaram-me que a construção da prótese era um processo que requeria muita dedicação e técnica e que alguns materiais eram importados, pelo que iria demorar cerca de três semanas para que me chamassem com o objectivo de ver o resultado e experimentar.
No final daquela manhã intensa, estava de regresso a casa, sentindo um misto de entusiasmo e ansiedade pelo facto de estar cada vez mais próximo e real a concretização de um grande passo para a minha qualidade de vida no futuro.

O prazo de construção foi cumprido rigorosamente e, após o intervalo das três semanas, contactaram-me para me informar que a prótese estava pronta para eu a testar e experimentar pela primeira vez. Combinamos a data para a realização desse grande momento.
Aquele dia, em que finalmente iria ver a minha nova perna direita e que poderia experimentar e sentir o que era novamente caminhar, havia chegado. Desta vez entrava directamente para o ginásio da casa ortopédica, acompanhado pelo técnico que estava ao meu dispor, para me ensinar o essencial.
Entrava no ginásio e deparava-me com a prótese encostada a um canto ao fundo do ginásio, à espera que a experimentasse, fizesse uso dela. O técnico explicou-me detalhadamente como deveria calçar a prótese. Parecia-me algo complicado todo aquele processo e, quando experimentei, foi relativamente difícil.
Pela primeira vez, ao cabo de oito meses, estava novamente apoiado em dois membros inferiores, mas a sensação não era nada agradável. Sentia uma pressão enorme no coto, como se estivesse a ser sufocado pelo copo da prótese. Era como se um pássaro completamente livre, fosse enclausurado num cubículo onde não pudesse bater as asas…
Passados alguns instantes daquela sensação inicial, com a ajuda das barras laterais do ginásio consegui dar os primeiros passos, parecendo um robot. O técnico estava bastante atento e dava-me indicações no sentido de eu olhar para o espelho em frente e observar a minha marcha. Também me questionava acerca da afinação do joelho e da orientação do pé, procedendo aos retoques técnicos necessários.
Algum tempo depois, descalçava a prótese, sentindo um profundo alívio no meu coto e com uma voz bastante desagradável no meu interior que me questionava se alguma dia seria capaz de andar normalmente com aquilo.
O técnico explicou-me também que a construção da prótese não estava ainda completamente terminada. Faltava o revestimento da prótese, que apenas seria feito depois de um tempo experimental, para dar tempo a que me adaptasse melhor e a proceder a algumas afinações necessárias. Trazia a prótese comigo para ir utilizando diariamente, de forma gradual, principalmente durante as sessões de fisioterapia.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Demande au Soleil



Peço ao Sol, à Lua e às Estrelas que levem até Ti a força, a beleza, a intensidade, o sopro deste Amor que me inunda, que transborda no meu peito...

Escola


Deixar a escola foi bastante complicado para mim. Frequentava o 12º ano, estava no início do 2º período quando fui internado no Hospital de Guimarães. A escola era o meu habitat natural, raramente faltava às aulas. Gostava imenso do convívio com os meus colegas, de aprender cada vez mais, prestando muita atenção ao que os professores ensinavam.
Como fui assim internado de surpresa, não tive oportunidade para avisar os professores e os meus colegas. Durante aquele período em que estive em Guimarães, apenas tive visita de colegas meus em duas ocasiões. Sentia falta daquele convívio diário, do contacto com os meus parceiros da escola.
Nos momentos difíceis e quando mais precisamos dos amigos e, naquela altura, apercebi-me de que ainda não possuía grandes e verdadeiras amizades. Talvez esteja a ser injusto comigo mesmo e com os meus colegas daquela época, mas foi uma realidade que vivi naqueles momentos de sofrimento.

Num dia em que fui à escola conversar com o director de turma, no intervalo do primeiro tratamento de quimioterapia, cruzei-me com alguns colegas meus nas escadas da biblioteca e apercebi-me da expressão de receio que pairava nos rostos deles, quando se depararam com o meu estado bastante fragilizado. Não era o mesmo Hélder que eles estavam habituados e ver.
Nessa reunião com o director, foi decidido que teria de suspender o ano lectivo em curso, pois não seria possível completar os dois períodos necessários para concluir com sucesso o secundário. A escola era uma parte de mim que ficava para trás nesse momento.

Em Setembro, iniciava-se um novo ano lectivo e eu decidira enfrentar o desafio de regressar novamente às aulas logo no primeiro dia. Ainda me sentia algo frágil, pois havia terminado recentemente os ciclos de quimioterapia. Pode parecer um pouco aventureiro ou heróico, mas para mim a vontade de voltar à escola era imensa, o que me levou a encarar tudo com bastante naturalidade, sem preconceitos relativamente à minha nova imagem, perante a exposição de uma escola inteira.
Recordo-me desse dia em que entrava naquela escola como se fosse uma criança a caminho do seu primeiro dia de aulas. Possuía um grande entusiasmo por voltar a sentir o contacto com aquele lugar bem familiar. Estava em frente à porta da sala onde iria ter a primeira aula, rodeado pelos meus novos colegas de turma, quase todos eles desconhecidos para mim.
A professora chegava à sala de aula e ao passar por mim saudou-me, pois já tinha sido minha professora há cerca de dois anos. Nas aulas sentia um à vontade que não era comum nos anos lectivos anteriores. O meu sentido de humor estava bem mais apurado, pondo um pouco de parte a timidez que fazia parte da minha personalidade.
Alguns dos meus professores eram meus conhecidos, o que ajudou a manter um relacionamento bastante agradável naquela turma, visto que não me identificava com a personalidade de uma boa parte dos meus colegas, pois considerava que se preocupavam muito em estudar, existindo uma certa obsessão e rivalidade por causa das notas.
Apesar de ter estado quase um ano afastado dos livros e das aulas, foi fácil para mim esta readaptação à escola encarava aquilo tudo com um certo à vontade, talvez até um pouco em demasia. Não sentia qualquer espécie de discriminação ou preconceito. A administração da escola deu-me todo o apoio necessário para que me pudesse sentir o mais à vontade possível, embora não fosse preciso nada de especial. Uma das alterações que efectuaram, foi a distribuição de quase todas as aulas da minha turma nas salas do rés-do-chão, para evitar que eu tivesse que despender demasiado esforço físico a subir e descer escadas.
Apesar de andar imenso sobre as canadianas, os meus braços sentiam-se com força suficiente para transportar o meu corpo, percorrendo alguns quilómetros diários pela escola. Sentia-me muito bem, começava a relacionar-me melhor e a simpatizar com os meus colegas e, apesar de pouco estudar, os resultados e as notas apareciam com alguma naturalidade.
Talvez um dos meus maiores receios fosse a minha reacção às aulas de Educação Física. Adorava desporto e sempre participei com enorme dedicação nessas aulas, mas agora a realidade era bem diferente. Por incrível que possa parecer, assistia às aulas de Educação Física, vendo os meus colegas empenhados e divertidos nas diversas actividades desportivas sem sentir qualquer espécie de mágoa ou desilusão por não poder participar activamente naquelas actividades. Um pormenor que já não era tão agradável era o facto de ter de elaborar os relatórios de cada aula, mas era um elemento necessário para a minha avaliação.

Na primeira semana de férias da Páscoa, estava marcada uma visita de estudo para Lisboa. Desde que soube da existência desta viagem, que quis participar, sabendo que era organizada por um professor amigo, que fazia questão que eu fosse. Estava ainda a adaptar-me à prótese, mas foi uma semana bem intensa, em que me diverti imenso, e em que pude testar a resistência das minhas capacidades físicas. Para quem estava ainda a dar os primeiros passos com uma prótese, caminhei vários quilómetros, aproveitando e desfrutando ao máximo de cada lugar que visitamos em Lisboa.
O ano lectivo decorreu com bastante naturalidade, concluindo o 12º ano com relativa facilidade, preparando-me para enfrentar um novo desafio, o de ingressar na Universidade.